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Souji — Evandro Pontes

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Brasileiros adoram se espantar com o grau de higiene dos japoneses.

Na Copa do Mundo em 2014, viram com admiração que japoneses limpavam o estádio antes de deixar o local que haviam acabado de usar.

Quando viajam para o Japão pela primeira vez, admiram as ruas limpas e a disciplina do japonês comum em não apenas limpar, mas sobretudo em manter tudo limpo.

Olham o resultado e aplaudem, mas desconhecem o processo cultural e a causa que leva o povo japonês a uma quase obsessão com a limpeza.

Japoneses aprendem em casa e desde muito pequenos a fazer limpeza.

É um ensinamento que se formos remontar todo o universo cultural japonês, vamos identificar causas religiosas nesse empenho com a limpeza.

No shintoismo, os japoneses são ensinados no dever do harai, o ritual de purificação do Templo. E “purificar” leia-se limpar. Limpar, aqui, na prática, é fazer faxina. Tanto de si mesmo, quanto do local que vai ser usado para o convívio. É comum no Japão que essa faxina se dê de forma coletiva, o Oharae, onde só os melhores são escolhidos para limpar um Templo, um bairro e as vezes até uma vila ou cidade inteira. É uma honra participar de um ritual como esse.

Todo japonês sabe fazer faxina como ninguém.

No budismo japonês, em seus dois principais ramos do zen, o sotô e o rinzai (ramificações zen do budismo de origem mahayana), a prática do harai foi incorporada e em inúmeros templos a limpeza do altar, dos sinos e dos objetos sagrados é um dever do monge budista e uma honra, pois apenas os mais dedicados e atentos são escolhidos para essa tarefa.

É do budismo rinzai, vertente do zen praticada exclusivamente pela classe Samurai, que algumas tradições do Bushidô, o Código do Guerreiro, deram origem a certas práticas em dojôs muito tradicionais de artes marciais (no Brasil inclusive, como é o caso do mítico Dojô de Bastos).

Os dojôs mais antigos e tradicionais mantém a prática do Souji, que é a limpeza recorrente do dojô incumbida a certos alunos mais novos (kouhais), sob a liderança de alguns veteranos (senpais).

Prática cada vez mais rara até em artes marciais, a tradição de fazer uma bela faxina vem sendo tristemente abandonada e, em muitos casos (conheço um deles) por força de denúncias de “trabalho infantil” ao Ministério Público, que intervém proibindo o Souji em dojôs tradicionais.

Perdem as crianças e os alunos mais novos (kouhais) que deixam de receber um ensinamento fundamental para a própria vida: como limpar o seu próprio quarto e os seus objetos, principalmente aqueles de uso do dia a dia.

Tornam-se adultos inúteis, mimados e porcos – esperam que os pais limpem suas coisas e, assim que saem da casa dos pais, delegam a faxina para um desconhecido. Não só: tornam-se adultos não confiáveis, pois alguém que está em grau questionável de higiene, em regra, é alguém com sérios problemas de confiabilidade.

A pior parte, contudo, é o efeito cultural disso: aprendem que fazer faxina é uma tarefa “menor”, muita vez “indigna”.

E com isso perdem boa parte da essência da vida, ao não saberem quais são as técnicas de manter algo limpo.

Essa parte da dignidade e da confiança absoluta, explico com exemplos. Entre dojôs tradicionais apenas os alunos de absoluta confiança são incumbidos de limpar as dependências pessoais (banheiro, inclusive) do Mestre. É na limpeza do banheiro que os defeitos mais íntimos do Mestre podem ser descobertos. E por isso quem se incumbe dessa tarefa (quando lhe é delegada, na forma de teste) precisa estar no mais alto nível de confiança. E aí vai o exemplo para que entendam: certa vez, há muito tempo atrás, um Mestre andava meio ausente do dojô e os alunos, descontentes com essas idas e vindas do Mestre. Um dos seus principais alunos foi escolhido para o souji da suíte do Mestre. Descobriu, durante a limpeza, que a ausência do Mestre estava associada a um tratamento de quimioterapia que o Mestre mantinha em segredo perante seus alunos. Esse aluno encarregado do souji fez as duas coisas que eram esperadas dele: a limpeza e o sigilo em relação ao câncer do Mestre. Esse aluno, de posse dessa informação, se viu investido do dever de apaziguar a equipe e a sua ânsia durante as ausências do Mestre, sem revelar qual era de fato o problema que estava causando essas ausências e a distância em relação do Dojô. E foi essa união que manteve o Dojô vivo e o empenho aceso dentro da equipe. Superada a dificuldade, o Mestre reconheceu o valor do aluno em questão e hoje, ele dirige o Dojô, que herdou depois que o Mestre faleceu, em um repique tardio da doença.

Esse tipo de atenção, que vale para a vida, o aluno aprende nas práticas de souji.

No Souji, portanto, representado na língua japonesa por este kanji – 進 – uma infinidade de palavras e significados pode ser expressada (grafadas como shoujin, soujin, shouji e, finalmente, souji). Pode significar “concentração”, “diligência”, “devoção”. Dependendo do contexto, pode significar uma postura “ascética”. E na acepção mais pragmática, significa “limpeza” ou “faxina”.

Em alguma famílias mantém-se a tradição de, após o Ano Novo Chinês, fazer um Grande Souji na própria casa, com a participação de toda a família, quando a casa é limpa a seco, com a retirada de toda a sujeira e depois é limpa com um pano umedecido em salmoura (o sal tem significados profundos no shintoísmo – quem já viu uma luta de Sumô vai se lembrar da purificação da área de combate com sal grosso por cada combatente que sobe ao dohyô, que é construído a cada combate pelos próprios lutadores). Ao fim, uma terceirão mão pode ocorrer com um novo pano umedecido em alguma erva que deixará um bom aroma e uma sensação de limpeza absoluta.

Essa limpeza, como o kanji de souji representa, traz também um significado de atenção “atenção”, “diligência”, “devoção”.

Logo, alguém que faz mal uma faxina é, acima de tudo, um sujeito desatento, pouco diligente e nada devoto. É um infiel, portanto.

Assim, “a forma como você limpa e como você passa pano em coisas sujas revela muito do seu caráter”, dirão os mais respeitados Senseis do Japão.

Só pela forma como você limpa o Dojô, o Sensei é capaz de observar se você é um aprendiz atento e dedicado, ou se você é um porco corrigível. Se corrigível, o Sensei irá ensinar não apenas o aluno, mas também chamará a atenção da família que o educou (neste caso, mal e porcamente).

Se notar que você é incorrigível, você é convidado a buscar outro lugar para treinar e praticar. Se o seu padrão de higiene não está dentro das exigências daquele dojô, possivelmente não estará dentro do nível de exigências de nenhum outro e isso se torna um problema de vida inteira para o porco incorrigível.

É por isso que crianças aprendem desde cedo a limpar: para não desonrar a família.

Essa forma de olhar o Souji e o domínio das técnicas de limpeza alocam para o ato de limpar um significado cultural completamente diverso daquele que existe no Brasil.

Uma das primeiras instituições a deturpar o ato de limpar é o Exército Brasileiro, que equipara a limpeza de uma banheiro a um “castigo” e faz com que esse ato se equipara a um grau de indignidade que no Japão a lição é completamente inversa – somente os alunos e “soldados” de absoluta confiança podem receber a honra de gerir uma tarefa de Souji, conforme já demonstrei em exemplo acima.

No shintoísmo e no zen-budismo rinzai apenas os Monges mais confiáveis podem tocar o altar e os objetos sagrados para mantê-los limpos e, assim, purificados.

Entre brasileiros, “limpar é coisa para os piores servos”, no Japão, é tarefa para “os melhores fiéis”.

Essa diferença não só se vê no ato de limpar em si, mas na vida.

O brasileiro, de modo amplo e geral, é bastante porco.

Não sabe limpar, não sabe fazer faxina, e quando o faz, executa com ódio, com desapreço, com desgosto e com muito, muito, muito desdém.

Não incluem na limpeza o significado japonês da “atenção” e da “diligência” e sobre qualquer acúmulo de poeira, passam o pano úmido misturando o pó, a sujeira e toda a imundície acumulada, a um balde de água suja com algum produto de supermercado (tipo Veja).

Depois que o pano úmido com Veja emulsiona a imundície, a sujeira não sai de lá, mas se dilui e se espalha por toda a superfície de convívio.

Nos primeiros dias, as pessoas terão “aparência de limpeza”: são enganadas pelo cheiro do produto químico e pela superfície escorregadia. Mas dentro de 3 ou 4 dias, aquela sujeira diluída vira uma crosta imunda e salta aos olhos, reaparece. O trabalho suíno da faxina mal feita vai, assim, se acumulando na segunda, na terceira e em todas as faxinas subsequentes como um trabalho de emporcalhamento a longo prazo.

Ao deixar de retirar a sujeira a seco para depois passar o pano úmido, o brasileiro convive com a sujeira que nem sequer para baixo do tapete vai parar: ela está lá, diluída com Veja e toda confortável, dando residência para ácaros, bactérias e outros elementos invisíveis e que retiram a sua saúde dia após dia, sem que você perceba.

O brasileiro faz faxina diluindo a sujeira por dois motivos: porque não sabe limpar, e porque tem preguiça quando vem a aprender o jeito certo.

O Brasil é um país com problemas sérios de higiene não é de hoje; e essa imagem do brasileiro fazendo faxina é o retrato mais fiel da política e da crônica política.

O cronista que sempre passa aquele paninho úmido para diluir a sujeira e deixá-la menos a vista dos demais, é o típico faxineiro que não sabe fazer faxina ou, se sabe, o faz com desdém e sob o rótulo da indignidade.

Dilui em água de esgoto as suas análises e joga ali para dentro não só Veja, mas também Folha, Antagonistas, IstoÉ, Estadão, Globo, Crusoé, CNN e, recentemente, youtubers-didireita além de outros produtos químicos-políticos de alta abrasividade e que misturam bem a sujeira a um “aroma de limpeza” que engana os olhos e o nariz, e, no longo prazo, acumula ácaros e bactérias (como o “Bacilo do Centrão”, por exemplo), consumindo a saúde do brasileiro e o tornando eternamente alérgico mas conformado com as doenças geradas pelo agregado de toda essa imundície.

Esse cronista que passa pano com Veja não limpa as coisas como um guerreiro.

Faz limpeza com desprezo à coisa limpada e à tarefa, em si, de limpar.

Passa o pano úmido para te enganar.

Já o cronista que passa um pano para tirar a sujeira antes de aplicar o produto purificador, normalmente sal grosso; esse quer ser honesto com você – e não só com você, mas com ele mesmo também.

Que 2021 seja um ano, portanto, que todos façam um Souji e aprendam a passar pano como guerreiros e não como traiçoeiros enganadores.

Um Souji em que a sujeira é realmente retirada e não diluída na superfície.

Ganhe com isso, em troca, um grau de honestidade política de tamanho japonês.

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