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Luis Manoel Siqueira: Cassio, um grande traidor na história

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Então Cassio disse a Brutus: “Há momentos em que os homens são donos de seus fados. Não é dos astros, caro Brutus, a culpa, mas de nós mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos.” (William Shakespeare — Júlio César — Ato I, cena II).

Cassio, senador romano, foi um dos que primeiro golpearam Júlio César. Brutos, seu filho adotivo, aplicou-lhe a facada final — ou a mais traiçoeira.

A política faz os homens se rebaixarem ao ponto de rastejar diante da conquista ou manutenção do poder. Chegam a mudar de toga para outra de candura mais alva: viram lideranças de governos, discursam como anjos. Mas são apenas disfarces. O “sábio” e “popular”, Júlio César só foi aprender isso no seu último fôlego de vida. Há sempre muito o que aprender, caro Brutus. Mesmo sendo um César.

Se eu viro um instrumento, a culpa é minha, e não do Sete-Estrêlo, do Cruzeiro do Sul. Se eu me deixo manipular, assim, como uma rasteira vassoura ou oculto um punhal, que retórica impedirá a humilhação ou o golpe traiçoeiro de um Cassio? Pagarei pela mentira dita ao povo, que não esperava Cassio, por confiar em mim. Entendeu, Brutus?

Palavras são frágeis. Podem variar de ocasião. Dizem que podem ser “resignificadas” ou “contextualizadas”. Palavras são diferentes de facadas, mas podem ser instrumentos de golpes traiçoeiros, previsíveis ou não. Dá-se pão e circo? Sempre! Mas palavras devem ser comedidas, ou se cristalizam no tempo. Por exemplo: “A verdade vos libertará!” ou: “Dai a César o que é de César!’.

Há momentos que a escolha de um Cássio e um Brutus como conselheiro confiável e filho adotivo não é culpa dos astros. E tu sabes, Brutus, que os homens se rebaixam e, em nome do poder ou do povo, deixam as suas humanidades para virar coisas. E se repetem, à míngua, na História.

Cassio tinha seus motivos. Brutus também. Ambos se rebaixaram, junto com César que se deixou trair para ser traído — ele e o povo de Roma. E então, muitos séculos depois, viraram todos uma tragédia na pena de William Shakespeare.

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