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Evandro Pontes: Quo vadis, PSOL?

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É impossível combater um adversário se você o desconhece por completo.

Até onde pode chegar o PSOL?

Para responder isso, não basta olhar para o PSOL de Adelio, nem para o PSOL de Boulos ou para o PSOL de Freixo – é preciso saber qual o esquema de poder está por trás desse partido.

Mais – quais as ideias e interesses que esse esquema de poder custodia.

Para saber o que é o PSOL, é imprescindível saber o que é a Convergência Socialista.

E para saber o que é (ou foi) a CS, é necessário conhecer no detalhe quais as linhas de atuação da esquerda durante o período que eles chamam de “luta armada”.

O período da “luta armada” compreende os primeiros anos do governo Costa Silva durante o Regime Militar no Brasil.

Após a deposição de Jango e a frustração de allendização do Brasil, as esquerdas partem para o que eles chamaram de “luta armada” e o que o próprio Trotsky chamava simplesmente de terrorismo.

O livro base para se compreender esse período é o Terrorismo e Comunismo de Leon Trotsky, portanto.

A vertente marxista-leninista era feudo de Luiz Carlos Prestes. Nessa vertente, havia farto financiamento de Cuba e de Moscou para as atividades dos comunistas no Brasil. Aos que não aderiram ao marxismo-leninismo, ligado à chamada “Internacional Comunista”, dois caminhos eram possíveis: (i) o maoismo (caminho adotado, por exemplo, pelos correligionários do PCdoB), tendo na origem as Ligas Camponesas, um grupo formado nos idos dos anos 1940 no seio do PCB e dissolvido no iníco da “luta armada”; ou (ii) o trotskysmo, caminho adotado pelos grupos de extrema-esquerda que acreditavam no uso do terrorismo como forma de tomada do poder, segundo o vaticínio do próprio Trotsky.

Esses grupos trotskystas, ao contrário da linha capitaneada por Prestes, eram associados à chamada 4ª Internacional, grupo de comunistas dissidentes do stalinismo e fundado pelo próprio Trotsky, que terminou a vida assassinado pelo próprio Stálin.

Pois bem: a partir do final dos anos 1960, todos os grupos de “luta armada” (leia-se, terrorismo, segundo a linguagem adotada pelo próprio Trotsky) tinham ligação direta com a 4ª Internacional (com algumas raras exceções, alguns grupos tinham dupla associação: com a 4I e Moscou ao mesmo tempo) e acabaram sufocados pelo regime militar. Seus remanescentes, ao fim dos anos 1970, puderam se organizar em movimentos que dariam origem aos partidos políticos de esquerda.

Essa oportunidade foi aberta pela estratégia do General Golbery do Couto e Silva, que alimentou a época da abertura e a partir do “Pacote de Abril” de 1977, livre trânsito aos ex-organizadores desse movimento. Golbery deu azo para que grupos terroristas de esquerda ressuscitassem na forma de “partidos” ou “movimentos”.

Um desses grupos de ação terrorista, a Liga Operária, uma dissidência da extinta Ação Popular (responsável pelo atentado no aeroporto do Guararapes no Recife e que contou, em suas fileiras, com gente como o Senador José Serra e o ex-Senador Cristóvam Buarque), organizou-se em um movimento trotskysta chamado Convergência Socialista.

A CS tinha ligações com Nahuel Moreno (de onde vem o nome socialismo moreno ou morenismo) e já nos idos de 1978 organizava-se em torno de um partido não registrado de nome PST – Partido Socialista dos Trabalhadores. Em fase de registro e reconhecimento, o PST organizou em 1979 o Congresso dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo, que deu origem à famosa greve dos metalúrgicos do ABC no mesmo ano, de onde surgiu a figura, nada mais, nada menos do que do líder sindical Lula.

Lula é, portanto, produto dos intelectuais da Convergência Socilialista.

O partido que resultou dessas ações agregou ao já informalmente existente PST, várias figuras e líderes sindicais que aderiram ao movimento criado pelos intelectuais da antiga Liga Operária e que estavam à frente de uma revista chamada O Trabalho (e que anos mais tarde veio a se tornar um movimento interno do PT, que sucumbiu diante do “Articulação”, movimento interno do PT liderado por Lula e Zé Dirceu – seus dissidentes vieram a fundar o PCO).

Dessa união da CS com os sindicalistas resultou então o Partido dos Trabalhadores, vulgo PT.

O grupo fundador da Convergência Socialista se tornou a mais importante vertente política dentro do PT até o início dos anos 1990.

Rivalizava internamente com esse grupo a LIBELU – Liberdade e Luta, outra “panelinha” de trotskystas que contava com Palloci, Luiz Gushiken e jornalistas como Míriam Leitão, Demétrio Magnoli e Reinaldo Azevedo.

Azevedo, aliás, um useiro e vezeiro pulador de muros, integrou a LIBELU vindo da CS.

E assim se formaram as duas principais vertentes internas do PT: CS e LIBELU (ao lado da O Trabalho e da Articulação).

O socialismo moreno da CS assistiu a uma troca de líderes nos anos 1990 e seu auge foi no período do Fora Collor, quando a CS foi capaz de mobilizar estudantes e toda a UNE (na época presidida por Lindeberg Farias, que antes de ir para o PT, militou no PCdoB de Manuela D’Ávila).  Fortaleceu-se bastante sob o aspecto político, com essa estratégia de juntar intelectuais e estudantes.

O caldo entornou quando Lula venceu as eleições em 2002 e levou para dentro do governo quase que a turma toda da LIBELU.

O pessoal da CS, mais radical e carbonário, melindrou-se com a postura de um dos líderes da LIBELU tornado Ministro da Fazenda, a saber, Palloci.

Palloci, todos sabemos, preferiu manter a cartilha econômica social-democrata de FHC, contrariamente à recomendação da CS, que propunha uma brusca ruptura para algo que foi ser aplicado anos depois, com a Nova Matriz Econômica do governo Dilma.

Essas divergências internas, levaram os líderes da CS a adotar uma medida defensiva fazendo apenas “críticas internas”, ao passo que outros já partiram para o desligamento do PT. Esse grupo que se desligou nos primeiros momentos do governo Lula, juntou-se a dissidentes da CS que haviam formado, anos antes, o PSTU. O PSTU foi formado por membros que “bateram de frente” com Zé Dirceu nos anos 1990 e, logo no início do governo Lula, receberam esses dissidentes da CS que discordaram de Palloci.

Os que preferiram permancer no PT, assumiram a liderança da CS e tomaram para si a estratégia de “cavar uma expulsão”. Esse movimento de acirramento dos ânimos da CS com o resto do PT foi pilotado por 3 líderes e integrantes da CS: a deputada Heloísa Helena, a deputada Luciana Genro (filha de Tarso Genro) e o deputado Babá.

Com a expulsão desses três líderes da CS, o movimento chegava ao seu fim definitivo no PT e ganhava força autônoma em um partido recém fundado por esses mesmos três ex-integrantes do PT. A esse partido foi dado o nome de Psol, ou Partido Socialismo e Liberdade.

Logo, o Psol é simplesmente o herdeiro direto das Ligas Operárias, que deram origem à Convergência Socialista, que ao fim e ao cabo se transformou no próprio Psol.

O Psol tem a marca do terrorismo pregado por Trotsky, em seu DNA. Isso é absolutamente inegável e pode ser extraído até mesmo de seu Estatuto Social: “o Partido SOCIALISMO E LIBERDADE é solidário a todas as lutas dos trabalhadores do mundo que visem à construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária, incluindo as lutas das minorias, nações e povos oprimidos” – essa “luta” a que o estatuto do Psol se refere é da mesma natureza da “luta” dos tempos de Ação Popular e no mesmo sentido empregado por Trotsky em sua obra Terrorismo e Comunismo; não se enganem.

Hoje não se ouve mais falar de seus fundadores: Heloísa Helena, Babá e Genro.

O partido foi tomado pela “turma do Leblon” a associou ao seu trotskysmo uma luta identitária: “O Partido SOCIALISMO E LIBERDADE desenvolverá ações com o objetivo de organizar e construir, junto com os trabalhadores do campo e da cidade, de todos os setores explorados, excluídos e oprimidos, bem como os estudantes, os pequenos produtores rurais e urbanos, a clareza acerca da necessidade histórica da construção de uma sociedade socialista, com ampla democracia para os trabalhadores, que assegure a liberdade de expressão política, cultural, artística, racial, sexual e religiosa, tal como está expressado no programa partidário”.

Sim, o objetivo final do Psol é implantar o comunismo, de preferência em regime ditatorial (expresso na locução “democracia para os trabalhadores”).

Estrategicamente e para alcançar o poder pelo voto, o Psol assumiu uma postura mais doutrinária e menos associada a ações que possam ser identificadas como de iniciativa do partido. As ações são tomadas no âmbito extra-partidário, caso do MTST liderado por Boulos, para preservar o partido juridicamente. O Psol possui várias conexões com coletivos e brigadas de esquerda, que instrumentalizam as ações “idealizadas” dentro do Partido.

Sob o prisma do esquema de poder, Psol e seus consectários de ação, como o MTST, fazem parte de um mesmo “conglomerado” que atua em perfeita sinergia, embora, juridicamente, mantenham “CNPJ distintos”.

Contudo, a coisa complica quando o observador saca a carta “Foro de SP”: eis ai um dos detalhes para o qual ninguém está atento – o Psol não integra o Foro de SP, portanto, é uma esquerda diferente do PT.

O Foro de SP (e, consequentemente, o Grupo Puebla) conta com o PT, PDT, PCB, PCdoB e o Cidadania (antigo PPS).

A atuação do Psol e o esquema de poder que o move é de natureza distinta dos movimentos de esquerda que dominaram o eixo bolivariano do qual o PT faz parte. Isso, obviamente, inclui a forma como o Psol se financia e acaba financiando as “ações” dos grupos ao qual o Psol pertence.

Logo, para responder à pergunta, “Para onde vais, Psol?”, um primeiro passo é reconhecer em seu DNA e na sua história que o Psol irá por caminhos bastante diferentes do que foi até agora o caminho PT e PDT e que, logo, pouco ou nada pode ser extraído por analogia aos caminhos do Foro de SP.

Observar os movimentos de seus líderes é, em segundo lugar, o passo seguinte para entender como essa resposta pode ser obtida.

Figuras presentes no livro O Imbecil Coletivo de Olavo de Carvalho aparecem no Psol: Fábio Konder Comparato, Leandro Konder, Paulo Arantes, Carlos Nelson Coutinho são algumas dessa figuras e, portanto, a leitura d’O Imbecil Coletivo é um passo essencial para se entender o Psol.

Seus atuais líderes, a saber, Freixo, Valente, Chico Alencar, além de Boulos, Jean Wyllys, Davi Miranda (“marido” de Gleen Greenwald) apresentam movimentações políticas e filiações extra-partidárias completamente distintas do PT e do petismo.

É importante notar como, mesmo integrando ideologicamente a ala que dominou o Brasil na era Lula e muito apesar das divergências, o núcleo do Psol se manteve alheio ao esquema do Mensalão e do Petrolão, podendo se apresentar como uma esquerda não envolvida em corrupção. Logo, o famoso discurso que fuzilou o PT simplesmente não funciona contra o Psol.

No campo local, o trio Freixo-Valente-Alencar, auxiliado por gente da velha guarda petista (como a octagenária Luiza Erundina), bem como pelas filiações supra-partidárias, como a participação do Psol no grupo Brigadas Populares, mostra que se trata de um núcleo que, com o DNA trotskysta, é disposto a ações mais vigorosas, inclusive sobre o ponto de vista do enfrentamento físico.

No campo internacional, o Psol ainda está engatinhando e o “auto-exílio” de Jean Wyllys foi o primeiro passo de construção dessa rede de contatos e influências.

As pautas ligadas a liberação de drogas, a associação amistosa com facções criminosas ligadas ao negócio do tráfico e, sobretudo a prevalência da “luta” no campo da ideologia de gênero e raça são marcas registradas da “ação social” do Psol.

Outro ponto importante é observar a ação política de ex-integrantes do Psol, como Randolfe Rodrigues (hoje no REDE) e Cabo Daciolo (hoje em casa), bem como de figuras menores que apenas carregam um “nome” – é o caso de Leonel Brizola Neto, que prestou homenagem pública ao ditador norte-coreano Kim Jong-un: a marca registrada é o “combate” e o “enfrentamento” com demonstração de admiração a regimes juche como o do ditador norte-coreano.

Wyllys e Freixo, por sua vez, mostram a influência da Rede Globo no trabalho de forja das novas lideranças do Psol. Wyllys, aliás, que vem desempenhando uma tarefa de estreitamento de laços internacionais exerce papel fundamental e pouquíssimo transparente, mas que, sabe-se, vem rendendo bons frutos a essa nova esquerda de verniz profundamente mais radical.

Nestas eleições de 2020 o Psol surpreendeu a todos: após ter retirado o vermelho de seu emblema e ter alterado para o roxo (cor supostamente “neutra” em sua aparência e que decorre da mistura do vermelho com o azul), expandiu sua presença nos núcleos de poder político regional e relegando ao PT um papel de coadjuvante na esquerda.

Como ensaio de resposta ao título deste artigo, podemos concluir: o caminho, já sabemos e as armas, item. O ponto final de chegada? Perguntem ao neto do Brizola (fã e admirador de Kim Jong-un): e não esperem “oportunidade para diálogo” a partir da resposta dada.

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