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Evandro Pontes: Coerência

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A palavra coerência vem do latim cohaerentia, que se obtém pela junção da preposição “co-”, que significa “junto de –” e do nominativo/acusativo plural neutro (“haerentia”) do termo de 3ª declinação haerens, que deriva do verbo haereo, que significa “reunir”, “agregar”, “colar”.

A palavra coerência é cognata (qual seja, é prima distante pois compartilha a mesma raiz etimológica e assim, carrega o mesmo significado) de aderência, herança, hesitar, inerente: são todas palavras que trazem essa ideia de reunir.

Vejam a palavra herança: advogados matarão facilmente a charada linguística quando lembrarem do monte-mor ou da declaração de bens nos inventários – trata-se, nada mais, nada menos, do que uma reunião de bens.

A palavra hesitar lembra alguém que ficou parado no mesmo lugar – colou o seu corpo a uma posição e dali não saiu.

Aderir é o ato de unir-se a algo, espontaneamente, por excelência: ad + haereo.

De todos os termos o mais complicado de entender é coerência. E o segredo não está, como podemos observar, na raiz (o verbo haereo) mas na preposição “co-” ou “con-”.

A preposição “co” vem do latim arcaico, herdado (com o perdão do trocadilho eventual) do osco e do estrusco. É a origem da conjunção “com” e traz essa ideia de “estar junto”, “acompanhar” (“ad-com-penho”).

Vejam a palavra completo. Na raiz temos o verbo pleo (“preencher”), mas a preposição “com” acrescenta significativo valor semântico ao pleo: o completo está preenchido “desde sempre”, pois o “com” denota alguma ação no tempo – qual seja, é algo que sempre esteve ali, “junto de”, desde o início dos tempos e perdura até que a completude seja enunciada.

Na coerência, sinônimo de co-herança, podemos imaginar algo extraordinário: um conjunto de coisas valorosas sendo compartilhada, pois essas coisas pertencem igualmente a um grupo de seres que empresta, em associação recíproca, essas tais coisas valorosas. Há um compromisso coletivo de professar e preservar (conservar) essas “coisas valorosas” para muitos possam compartilhar (com+partir).

Na coerência mais complexa, o ser isolado, aquele ser do Salmo 88, faz restar a ele esse mesmo conjunto de coisas valorosas – ele ainda compartilha com o seu “eu de ontem” as coisas valorosas que carrega hoje e quer carregar para sempre e por isso, no Salmo 88, há fundada inspiração para que peça a clemência ao Senhor (88:13 – “Podem, na escuridão, serem conhecidas Tuas maravilhas, e na região do esquecimento, Tua justiça?”).

Ser coerente é acima tudo compartilhar consigo mesmo um único conjunto de valores: mesmo que te mandem para o Inferno.

É manter desde a origem o mesmo quadro de coisas que sustentam o sujeito.

Ser incoerente é o inverso disso.

Assim, quando alguém troca o seu manancial de “coisas valorosas”, deixa não apenas de compartilhar com outros (incluindo e sobretudo o seu “eu pretérito”) essas “novas coisas” que adquiriu no meio do caminho, como também cessa de desfrutar dos outros (incluindo e sobretudo o seu “eu pretérito”) as coisas valorosas que carregou até então e que foram usadas em câmbio espúrio e para outros fins que não manter a coerência.

O incoerente é o mal em essência.

Deve ser combatido, repelido e odiado.

Lembro-me de um dos maiores professores comunistas que já tive nos tempos de faculdade – seu bordão era “não me cobrem coerência – estou estudando”.

Dias antes de falecer, conversava ao telefone com meu saudoso Mestre Goffredo Telles Junior que, em tom de despedida, me disse: “Evandro, seja coerente em tudo o que você fizer na vida”. Ele não sabia quem dos professores da casa, na época, estava fazendo o vaticínio pela não cobrança de coerência. Sequer sabia que havia o tal do vaticínio – certamente faleceu sem sabê-lo.

Nunca revelei a ninguém essa passagem de vida, que faço aqui na abertura de minha coluna neste jornal Vera Cruz: a coerência para mim não é uma palavra, não é um vaticínio – é uma promessa de leito.

Me cobrem coerência! Essa é a fatura que tenho a dar a você, leitor, leitora.

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