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Renan Diniz: Enéas Carneiro, um dos primeiros “anti-Lula” do Brasil

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O século XX ficou marcado pela divisão entre os blocos de ideologias político-econômicas: o capitalismo liberal e o comunismo estatista. Divisão essa que só começou a mudar no final do século. Com o declínio da União Soviética muitas foram as consequências nas interpretações sobre as formas de arranjo do Estado e da sua imposição na economia de mercado. O capitalismo liberal parecia ter vencido a batalha ideológica e se firmado como modelo político-hegemônico, além disso, o neoliberalismo tomava grandes proporções, marcado pela ideia de uma governança global e uma quebra contínua de fronteiras na economia.

Nesse cenário, que o ex-candidato à presidência Enéas Carneiro e a estrutura partidária formada com o PRONA (Partido de Reedificação da Ordem Nacional) reivindicaram a manutenção do nacionalismo, em contraposição às agendas neoliberais e globalistas. Somado à questão econômica, Enéas adentrava em um campo de batalha “esquecido” diante da época: apego às tradições, à hierarquia e aos valores conservadores, moralização e reordenação da nação.

Enéas Carneiro, quando surgiu como candidato à presidência, foi apresentado como a personificação da indignação do homem comum, propagava o culto à ordem e à autoridade, bem como a crítica aos políticos profissionais. Tinha um perfil carismático e uma liderança emergente. Em seu discurso, se colocava como solução para uma desordem nacional e fazia apelo aos valores conservadores de uma sociedade marcada pelas tentativas de golpes de regimes comunistas e pelo período da ditadura militar.

O discurso nacionalista, conservador, em contrariedade aos partidos políticos tradicionais, foi uma característica perene das candidaturas de Enéas Carneiro. Tanto nas suas três candidaturas à presidência, como também nas suas duas candidaturas ao cargo de deputado federal pelo estado de São Paulo.

Prona construiu, para si e para Enéas Carneiro, a categoria de referencial para o conservadorismo brasileiro. Em 1994, isso pode ser constatado de modo pleno. Em uma eleição polarizada entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB, eleito em primeiro turno) e Luís Inácio Lula da Silva (PT), Enéas Carneiro alçou a terceira posição, garantindo 7,38% dos votos válidos, ficando à frente de candidaturas de peso, como de Leonel Brizola (PDT), Orestes Quércia (PMDB), entre outros nomes. Em 1998, Enéas Carneiro conquistou a quarta posição nas eleições para Presidente.

Em 2002, foi o candidato recordista de votos para Deputado Federal. A marca de 1,57 milhão de votos que Enéas Carneiro recebeu em 2002 só foi superada em 2018, quando Eduardo Bolsonaro recebeu 1,8 milhões de votos para deputado federal também pelo estado de São Paulo.

Enéas Carneiro é costumeiramente retratado nas redes sociais como uma figura política tributária à história do anticomunismo no Brasil, que tem expressões em diversos polos do pensamento de direita. Sem dúvida, em vários momentos o líder do Prona dedicou a sua atuação a confrontar reivindicações e correntes do campo progressista, principalmente o Partido dos Trabalhadores e de sua principal liderança: Lula. Seja no campo político, quanto no campo cultural, Enéas Carneiro se apresentava como um anti-lula.

Após a morte de Enéas Carneiro, e especialmente ao longo do processo de retomada do conservadorismo no Brasil, a figura do líder do Prona passou teve sua memória recapitulada por movimentos e políticos de direita. Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro, por exemplo, protocolaram, em 2017, um pedido de inserção do nome de Enéas Carneiro no livro de Heróis da Pátria brasileira. Casualidade a parte, Enéas Carneiro contribuiu para pavimentar o caminho para o atual presidente Jair Bolsonaro.

Resgatar a figura política de Enéas Carneiro, é também o resgate de um desconforto com a imagem de uma democracia que, para muitos, não se cumpriu. Não injustamente, Enéas Carneiro é apresentado como um líder que o Brasil não soube aproveitar, não soube valorizar. Em resumo, Enéas Carneiro seria “o melhor presidente que o país jamais teve”, pelo menos até janeiro de 2019!

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