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Anderson C. Sandes — Conservadorismo X Juventude: um problema para ontem, hoje e amanhã

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No dia 23 de fevereiro de 2020 faleceu Chietsu Watanabe, com 112 anos. De acordo com o Livro dos Recordes, o japonês seria o homem mais velho do mundo. Contudo, o ancião morreu com a idade de um bebê, comparado à história da humanidade.

Em A Crise na Educação, Hannah Arendt escreveu[1]: “O mundo em que as crianças estão a ser introduzidas […] é um mundo velho, quer dizer, um mundo pré-existente, construído pelos vivos e pelos mortos, um mundo que só é novo para aqueles que nele entraram recentemente […]”.

Considero importante, antes de tudo, definir meu objeto de reflexão, o jovem. Entendo, em tal contexto, a juventude não apenas como uma questão etária e numérica — o IBGE define como jovem a população dos 15 aos 24 anos —, mas sobretudo como uma percepção de continuidade. Afinal, o conceito de juventude pode ser relativizado em decorrências comparativas. Sou mais jovem — atualmente — que qualquer leitor com trinta anos de idade, por exemplo.

Que quero dizer com continuidade? O que já disse a Arendt na citação evocada. Vivemos em um mundo velho, que somente é novo para os recém nascidos. E isso só é possível porque existe a continuidade, seja no sentido biológico — reprodução — ou no abstrato — cultura, tradições, valores, etc. Se, por acaso, cessarmos o advento da juventude, do porvir humano, em pouquíssimo tempo não haverá continuidade alguma, a não ser por meio dos vermes famintos em nossos restos de tutano.

Aí está a gravidade. Se negligenciarmos a juventude, estaremos destruindo ao nosso posterior de modo automático. Quem herdará nosso chapéu ou contará nossas anedotas? Na melhor das hipóteses, teremos uma civilização — ou não civilização — diferente a cada geração. Se queremos, enquanto agentes de ação, pensadores, legados do Ocidente, que haja continuidade para tais amadas flâmulas, precisamos acolher a juventude em volta de nossa fogueira e fazê-los ouvir, gostar de ouvir, manter as labaredas e continuar a história para o próximo, e o próximo. Alguém precisa manter as chamas acessas. Seu Heleno e seu Emídio, ainda que finados, vivem, pois eu, neto de ambos, vivo.

Ressalto que minha análise não intenciona ser filosófica ou definitiva. Sequer tenho pretensões ou interesse demasiado por tal disciplina. Sou poeta (matriz de filosofia), e minha visão de ler o mundo é mais primitiva, dependente da generosidade das musas e de contemplação distinta. Sinto pelas moelas. Alguns chamariam de mimesis. E é nesse rumo que disserto o ensaio por agora, pelas forças analogantes.

Mas e como eu considero o conservadorismo? Grosso modo, não como viés político — somente —, mas como algo mais semelhante à religare. Creio no eterno, no transcendente, no sagrado, no motor inamovível, na tradição, em valores universais, em moral. É um religar não necessariamente à divindade — caso não creia o leitor — mas ao que chamamos de civilização, de Ocidente. O desligar — rompimento total ou tentativa de — é a revolução, e antagônico ao que considero conservadorismo.

Creio que muitos de meus colegas conservadores tenham visão semelhante do espectro. Tendo isso em vista, é preciso reconhecer que tal modelo exige certo proselitismo, apologética, boas novas. E para transmitir a “mensagem” a todas as “tribos” — licença poética para referências bíblicas — não precisamos apenas de linguagem, mas de comunicação. O fim da linguagem é a comunicação, parece óbvio. Mas nossa linguagem, em minha análise, não comunica de nossas portas para fora. Temos um dialeto — e precisamos dele para debate interno —, mas precisamos mais que austero e acre balbuciar. Precisamos de palavras que nos permita o “ide”.[2] O desafio é certo, imensurável. “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da plantação que mande obreiros para fazerem a colheita”.[3]

A verdade é que mantemos um desprezo oculto e até consciente pelos jovens. Não necessariamente pelo jovem em idade, mas pelo jovem “cultural”, aquele que olhamos e dizemos com escárnio escorrendo pelos lábios: veja, um jovem. Aquele de marcha distraída, bermuda, ou minissaia, no caso das meninas, camiseta com estampa de joystick, fones no ouvido, corte de cabelo excêntrico ou colorido, debochado, cheio de energia, sonhos juvenis.

Queremos olhar e ver um fidalguinho carregando de livros, se possível em tom de sépia, com fundo musical de Chopin. Algo hollywoodiano, pisando elegantemente em calçamento de paralelepípedos.

Nossa vontade de anular a personalidade alheia é um escândalo. Não queremos o outro, queremos nós no outro.

Concordo com as acusações comuns a respeito dos jovens? — crueldade com os pais, macaqueamento do coletivo para não ser isolado, vanguarda dos erros e perversidades do século, rebeldes, etc. — Sim, concordo. Isso revela que não merecem resgate? Acredito que é exatamente o contrário. Precisam.

“Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum”.[4] Eis a razão para um esforço maior em tal resgate. Precisamos atrair a “continuidade dos tempos” para nosso lado. Desejar fulminar a juventude ou convertê-los na marra não é razoável. Entendo que o mundo já é “velho e cansado”, e precisamos de certo renovo, resgate. Talvez pais leitores desesperados entendam meu apelo. Quiçá toda gente que sonha em colocar filho no mundo queira entender. O amanhã pode ser tenebroso, caso não resgatemos duas ou três almas nubladas.

Alguém precisa fazer o chamado trabalho sujo. Artistas, comediantes, filósofos, líderes espirituais, toda a gente. Alguém precisa permear o meio jovem e lançar sementes e iscas. A “cultura jovem” já está dada, e alguém precisa conhecer o mínimo para comunicar por igual.[5] Principalmente música e cinema.

Se por acaso convidarmos um desses infelizes para nosso castelo conservador, o que encontrarão na antessala[6] húmida e escura? Um busto de Palas abaixo da abóboda, Caravaggio nas paredes frias, Missa em Si Menor de Bach ao fundo, calhamaços em capa dura nas estantes. Tudo muito bom, concordo. Mas no busto de Palas pode haver um corvo assustador[7]; as sombras de Caravaggio podem botar qualquer um pra correr de medo; Bach pode colocar o mancebo em coma; a biblioteca pode fazer lembrar da escola, e não há algo mais terrível e perturbador.

Sim, Lewis usa analogia semelhante em Cristianismo Puro e Simples. Pelo poder da mimética digo: precisamos de um Conservadorismo Puro e Simples, um saguão de espera aconchegante, com várias portas de entrada para serem escolhidas: política, filosofia, poesia, música, comédia, cinema, artes plásticas no geral, e outras tantas. Que a antessala seja um lugar comum, de encontro, não o lugar final. Nela não deverá ter muito mais que cadeiras, iluminação e portas, muitas portas para cômodos, esses sim, mais “profundos”.

Bem, em suma, do que precisamos? Colocar a casa em ordem, antes de tudo. Arrumar cada cômodo e antessala — tarefa complicadíssima. Reunirmos todos na sala de espera, reformar nossa linguagem e produzir comunicação para o mundo velho e cansado lá fora. É lá que está a continuidade. Alguém precisa fazer o trabalho sujo.

— Ide!

Notas

[1] A Crise na Educação” foi publicado originalmente na Partisan Review em 1957 e depois incluído na coletânea de ensaios editada em 1961 sob o título Between Past and Future.

[2] E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Marcos 16:15

[3] Lucas 10:2

[4] O imbecil juvenil, Olavo de Carvalho. Jornal da Tarde, 3 de abril de 1998.

[5] Escrevi sobre isso em dois artigos: Pra não dizer que não falei da cultura popular e conservadorismo e O pop como caminho para a alta cultura.

[6] Referência a analogia de C. S. Lewis no prefácio de Cristianismo Puro e Simples.

[7] Referência ao Corvo de Edgar Allan Poe.

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