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Anderson C. Sandes: Pra não dizer que não falei da cultura popular e conservadorismo

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“Mas se a galera da direita, bando de cintura fina, ficar achando que cultura é só canto gregoriano e tragédia de Sófocles, aí tem mais que se foder mesmo” — Palhaço do Brasileirinhos

A arte (do grego téchne) é uma construção exclusivamente humana. Seja para imitar o real (mimesis), criar o ideal (poiesis), para expressar, comunicar, construir . . . mas é sempre humana. Vez ou outra alguma revista de arte publica sobre macacos ou elefantes que fazem “arte”, deslizando pincéis em telas, sem técnica, sem intenções, sem sentimento, sem comunicar… sem humanidade.

São todos idiotas. Apenas pessoas fazem arte, é quase uma necessidade da humanidade. Desde criança eu já ouvia dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Por mais simples que sejam as pessoas a nossa volta, todas têm ânsia por arte, cultura e, de algum modo, consomem arte.

Utilitarismos à parte, mas sabemos bem das benesses da arte e de tudo que nos oferecem as Musas. Sabemos que toda sorte de gente produz arte por aí, umas boas, outras ruins. Já adianto que considero arte ruim aquela cuja técnica e atitude não comunica e, o mais importante, não comunica a humanidade do artista. Não gostar de determinada arte não quer dizer que a mesma seja ruim. Nunca conheci ninguém sequer que ache feio o som de um piano a tocar. Já ouvi de alguns que acha chato, entediante, etc., mas não que seja feio ou ruim. Já presenciei gente chocada com pinturas realistas, mas que sempre assume a beleza e perfeição da obra cujo limite transcende a moldura.

Certa vez ouvi uma indignação de Ariano Suassuna, que leu em algum lugar que o Chimbinha era um “músico genial”. Ele questionava: se eu gasto a palavra “genial” com Chimbinha, o que me resta para descrever Beethoven? É uma boa questão. Existem dois erros ao falar de cultura: um é achar que tudo é boa cultura, outro é achar que quase nada é boa cultura e deter-se a cânones. O primeiro erro é muito presente no pensamento revolucionário, o segundo é um câncer no conservadorismo que nasce no Brasil.

Conservador que fala em restauração cultural e fica preso em sua biblioteca lendo lords ingleses, pitando fumos excêntricos, com nojinho de apertar mãos nas ruas, está construindo a ruína. A cultura popular é Amado Batista, é Tom e Jerry, é Naruto e Derby. Se não sabemos quem é a secretária da beira do cais, quem é o gato ou o rato, quem é Madara, ou se é melhor o cigarro da carteira azul ou vermelha… a nossa guerrinha narniana está perdida. Nunca vamos conseguir fazer um jovem ler Machado se não soubermos o que é um wingardium leviosa. Se não conhecermos umas duas faixas de Scorpions ou Linkin Park, será complicado convencer alguém que acha que Slash (ou o Chimbinha) é o melhor músico de todos os tempos a ouvir os pianos de Mozart, Chopin, ou o som barroco de Vivaldi. Manter-se em trincheira de gabinete não nos levará à vitória cultural ou política.

Política… interessante é ver esses leitores de lords só falando em política, tão incultos como os macacos de pincéis nas mãos, tão desconexos de seu papel como os elefantes com os pincéis nas trombas, pousando para revistas de arte. O público sequer entende A Bailarina da Cecília Meireles e eles indicam T. S. Eliot. A audiência não sabe a diferença entre os “porquês’, mas insistem que todos devem estudar latim. Estão errados? Não. Mas estão perdidos no tempo-espaço. A direita brasileira que surge é um bebê, e para bebês se lê conto de fadas, não Dante, não Cícero. Ou será que todos pensam que os conservadores que ora se assumem assim estavam ontem nas bibliotecas e teatros das cidades consumindo alta cultura?

Estavam comentando a novela das oito, ouvindo Luan Santana, vendo os lançamentos da NetFlix, fazendo download de anime dublado, reclamando do baixo salário, odiando seus patrões, sonhando com opulência, votando no Aécio.

“Bem, deixei os contos de fadas sobre o chão da creche, e desde aquele tempo não encontrei nenhum livro sensato como eles. Deixei a babá, guardiã da tradição e democracia, e depois não encontrei nenhum tipo moderno tão sensatamente radical ou conservador como ela” — G. K. Chesterton

Perceba, leitor paciente, que não estou dizendo para ignorarmos a alta cultura, estou clamando para não ignorarmos a cultura popular, pois ela quem está formando o povo, povo esse que acha que Tróia é uma criação do cinema e apenas um filme. Eles não sabem quem é Homero, então fale do filme, só depois de Homero. É momento de pedagogia básica, de pegar na mãozinha e desenhar um “ç”, como um só corpo, e ainda ter a sensibilidade de identificar se o indivíduo é destro ou não, pois se não for, terá que se virar e tornar-se canhoto em dois tempos também (não no sentido político [para de só pensar nisso, caramba]).

O povão é quem define tudo, no final, pois é reflexo. E no momento é reflexo de uma elite decadente. Queremos ser elite? Ótimo, que sejamos, mas permitamos que o povo reflita, e para isso, devemos ser acessíveis, devemos COMUNICAR. E para comunicar ao povo é preciso descer um pouquinho do balão. O filho de Deus desceu do céu, e como carpinteiro construiu nossa religião e valores. Façamos o mesmo, então, inda que nos preguem as mãos e os pés. Sejamos povo também.

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