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Anderson C. Sandes: O pop como caminho para a alta cultura

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Em meu último texto me permiti a ousadia de alfinetar “lords” da direita que sentem nojinho da cultura popular (o que é estranho para conservadores), enquanto reviram o universo dentro de suas gavetas, planejando formas para “educar” toda uma nação na alta cultura.

Bem sabemos que a era é propícia para fraudes humanistas, ressentimentos e covardia. Temos pessoas que amam a humanidade mas odeiam o próximo; pessoas que não se falam por não suportarem pensamentos minimamente divergentes acerca de quase tudo; indivíduos que não falam o que pensam por temerem olhares e críticas; homens adultos que se escandalizam com barbas grandes e usam bermuda na rua  — peguei pesado nessa?

E como os tempos são estranhos, os males são muitos, e um deles é o fingimento. Tem gente que mal tem o que vestir, mas tira foto de frente ao espelho para mostrar nas redes sociais que tem um iPhone. Tem os que tiram fotos com livros que nunca lerão, para que pareçam mais cult. E como — mais uma vez — a bobeira não tem limites, tem os que não conhecem nada da cultura “pop”, mas a odeiam visceralmente, achando que assim serão superiores.

— Ain, mas por que eu vou ler Vinicius de Moraes se eu posso ler Dante? — E não lê nenhum dos dois.

— Eu vou ouvir Legião Urbana se eu tenho Mozart no meu smartphone? — E não tem saco pra ouvir uma sinfonia inteira, quietinho, como tem que ser. É o cenário que temos: colecionadores de playlists cult no Spotify e leitores de capa.

Mas já destilei minhas impressões suficientemente na coluna anterior. Desta vez quero contar sobre um final de semana com alguns amigos e, demonstrar como a “cultura pop” (a que tem o mínimo de descendência, é claro) reflete a alta cultura e pode levar à mesma.

* * *

Um fato muito ignorado é o de muitos dos grandes clássicos (tanto na literatura e na música) terem sidos “pops” no passado: A Divina Comédia e a obra de Homero são exemplos, constantemente recitadas em praças públicas. Mozart tocava triunfante em teatros, inclusive de periferia.

* * *

Estava eu cercado de três amigos, há alguns dias. Papo vai e papo vem, tocamos em assuntos diversos, e em algum momento falamos sobre músicas românticas — pintou aquela boa oportunidade para falar de cultura, bastava esperar. Alguém evocou a música Monte Castelo, de Legião Urbana, e citava:

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

De súbito corri até meu quarto, deslizei o indicador sobre algumas lombadas e saquei um livrinho de sonetos de Camões. Corri de volta à mesa onde nos reuníamos. Abri o livrinho na página correta e mostrei um poema. Ficaram espantados, era igualzinho a música do Renato Russo.

— De que época é esse poema? — Perguntou um deles.

— Século XVI — Respondi.

Caro leitor, eu fiz três amigos lerem Camões com admiração, espantados, como se achassem ouro. Sem pedantismo, sem narizes empinados, sem preconceitos — muitas vezes por causa de tais lords chatos —, sem isolamento e bloqueio à minha pessoa. Não quis falar sobre a referência de I Coríntios 13 contida também na canção, pois essa era bem clara e não quis abusar da sorte. Só isso já seria motivo para dormir bem. Mas outra oportunidade surgiu.

Alguém jogou o velho Fagner na mesa, cantando Canteiros:

Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento

Aproveitando o ensejo, sem titubear soltei: Sabia que essa música também foi inspirada em um poema? Coloca aí no Google: Marcha, Cecília Meireles — um lordezinho poderá agora torcer as ventas reclamando que Cecília Meireles não é grande coisa e blá blá blá, haja saco.

Pedi para pular para a penúltima estrofe*: mais espanto, mas leitura de poema. Outro já abriu a letra do Fagner para fazer comparação da semelhança. Abusei um tanto e contei um pouco a história da música e de certa treta jurídica. Acharam interessante, riram mais um pouco da coisa e o assunto mudou.

Óbvio que grande parte do que hoje é “pop” é grande lixo, pouco aproveitável, e péssimo degrau para a “escalada” cultural. Mas há muito no imaginário popular que podemos tirar proveito. A alta cultura, com o advento da internet, é acessível a muita gente, mas para ter acesso é preciso ter conhecimento da existência. Uma simples canção pode remeter a um poeta, um romance, uma biografia grandiosa, um fato civilizacional profundo, um tratado teológico, etc. Só o povo alcança o povo, não tem como correr. Ler e ouvir o que há de melhor é ótimo e é preciso. As “bolhas” e “panelinhas” têm sua importância, mas entre elas e a base há um hiato enorme que precisa ser preenchido. Precisamos de ponte no meio do abismo, precisamos de travessia, tão urgente quanto a restauração da alta cultura, afinal, pontes devem levar a algum lugar. Menos nojinho, por favor!

*Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

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